O Auto conhecimento é a chave para a conquista do sucesso.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Seguindo a trilha CapV b

Um ano se passou desde o dia em que o capelão Domingos determinou que Sofia era uma bruxa! De lá para cá, tanta coisa está diferente na vida desta família! Sofia relembra o encontro de Rui, seu marido com seu amigo Francisco que o apresentou ao capitão da caravela. Não por acaso, mas ela tem certeza que sua Santa Senhora estava a guiar os passos, para a salvação do terrível destino das famílias que tinham um membro seu queimado na fogueira. Nem por acaso a caravela saía de Portugal naquele mesmo dia para o Brasil! Fôra uma viagem terrível para Sofia, que ama tanto sua terra natal e sente muita saudade de casa. A jovem portuguesa que nunca saíra das terras onde tinham construido seu lar, tremera de medo a viagem toda! O mar, tão grande, como era possível? E aquelas pessoas negras no porão, que terror! Mas eles sobreviveram aos oito meses que durou a travessia. E hoje, a adaptação em terras novas está sendo um verdadeiro sacrifício, muito difícil. No que chegaram ao Brasil, as terras boas já tinham dono. Como ele não haviam trazido dinheiro para comprar, eles se aventuraram e adentraram na mata, abrindo clareiras, junto com outras famílias portuguesas que também vieram no mesmo navio. A conquista da terra foi feita sem dificuldade, os índios amedrontados, se embrenharam mata adentro, e o governo lhes deu posse da terra conquistada. Pela primeira vez, nesta noite, eles dormem em seu próprio casebre. O pensamento de Sofia busca na prece conforto, ela ora baixinho...- Senhora mãe minha,agradeço! Ave Maria, cheia de graça... Ela sente que parece que se passaram dez anos! Mas consegue trazer para seu coração, gratidão. Está com seu marido amado, seus dois filhos e um lar! É uma terra estranha, são pessoas diferentes! Na cama, deitados ela encolhe o corpo, aconchega o marido e as crianças e adormece, chamando sua Santa Senhora para proteger sua família. Só então consegue extenuada, adormecer.

Seguindo a trilha Cap V a

É noite, o canto da coruja desperta Jacira. As dores em seu corpo, trazem como um raio a violência sofrida. Não consegue mais chorar! Está muito fraca. Junta a pouca energia que tem para esfregar duas pedras, uma na outra, nos galhos secos, que sempre deixa pronto para usar. Logo uma pequena fogueira arde e o crepitar dos galhos secos, é o único som ao redor, até a coruja está quieta. Coloca em um pote de barro algumas ervas que guarda dentro de um velho saco. Vira água de um cântaro e coloca junto do fogo para aquecer. Sonolenta, fraca, espera com paciência que o fogo faça sua parte. Logo a infusão das ervas deixa exalar do pote, um cheiro forte. Está pronta a beberagem. Bebe, engolindo devagar todo o líquido. O gosto é adocicado, acarinhando o corpo da jovem índia. Conforme seu corpo absorve o líquido, uma nova energia brota nela. Sua voz,grave como num lamento, entoa um canto. Lá fora, as estrelas dominam o céu. A lua cheia brilha, clareando a escuridão natural da mata e o som da sua voz é expandida para longe. Animais e pássaros acostumados com o canto alegre que ela canta, todos os dias, sentem seus pelos e penas arrepiarem, os amigos queridos dela sentem que algo de muito ruim aconteceu. A voz dela não é mais a mesma! Dentro da oca, ela veste suas roupas de feiticeira. Pinta o rosto, braços, pernas com o carvão do fogo do dia anterior onde ela tão feliz encerrara os rituais, que parece que foi há séculos atrás! Sua voz canta dando um ritmo acelerado, alto e vai se tornando rouca. Seu olhar atravessa a oca, abre as asas de gavião que neste momento está nela, voa até o rio, na cachoeira, buscando o rosto daqueles homens, até identificar um por um, são sete. Retorna rápida à oca. Retoma a consciência, sendo Jacira a feiticeira! Ela pega o saco preto, cheio de espinhos. A voz grave e rouca. começa agora uma cantinela de malefícios, dirigidos aos homens que a violentaram. Quando joga os espinhos no fogo, surge um clarão forte e a forma da salamandra se delineia nas chamas. Com o corpo tremendo, devido ao poder que está exigindo dele, ela fala palavras xamânicas, e com o espinho fura seu dedo indicador da mão esquerda. O sangue começa a escorrer e ela o pinga sobre as chamas, sobre os espinhos que queimam e que enviam a morte decretada por ela, à salamandra. Repentinamente a floresta se enche de gritos apavorantes, comungando todas as fôrças da escuridão com ela. Então uma explosão acontece e a salamandra é libertada do fogo, levando com ela as maldições e a sentença. Jacira levanta, vai até a entrada da oca e acompanha com olhar duro o rastro de fogo que se afasta célere em busca de seu destino.

Seguindo a trilha Cap V

Igual à pantera, as narinas de Nakeba se dilatam, para identificar os cheiros ao redor. Um cheiro dirá qual o caminho que deve ser seguido. O sol lança seus raios sobre a africana, neste pedaço da Terra! Encontra o cheiro, "cheiro do mar" que retesa os músculos de todo o corpo. Atenta pressente que foi para lá, que seus irmãos foram levados. E tal qual a pantera seu animal-totem, inicia a caminhada com pisadas firmes e rápidas! Dois dias se passam. Seguindo o faro, ela é guiada pela selva africana. Passa por aldeias que vivem a mesma dor que a sua, deixada para trás. Velhos e crianças, mulheres com o olhar vazio contando a mesma história : a saudade de seus homens levados para longe, à força! Seu instinto diz que ela está cada vez mais perto e o cheiro do perigo no ar alerta que aqueles homens maus estão por perto. O cheiro no ar de pólvora queimada, trazido pelo vento alerta Nakeba. Sente que seus Orixás estão consigo. Ouve gritos de dor, protesto, choro... então os vê! Escondida na ramagem, presencia a covardia daqueles malfeitores. Homens e mulheres negros, estão acorrentados uns aos outros. Os que se rebelam, o açoite sem dó bate em seus corpos. No chão estão dois corpos mortos a tiros. Atenta, controla sua fúria, esperando a noite chegar. Mas eles conduzem pela trilha o grande número de prisioneiros, até o dia clarear, sem descanso. Como uma sombra, ela os segue. Durante tres dias, ela aguenta ver aquele terror,cada um dos homens possui armas que expelem fogo. Sua lança, o arco e flecha, não dariam conta sequer de alguns, são muitos. O cheiro do mar vai ficando cada vez mais forte! Quando ele surge imponente, é noite! O barulho das ondas tem um som que ela nunca ouvira. Afastada do grupo, por instantes, sente mêdo, estarão seus irmãos próximos dali? Exaustos os prisioneiros dormem. Os homens brancos descansam e a guarda é afrouxada. O momento esperado pacientemente por Nakeba enfim chega, é agora! Usando seu poder mágico, chama a irmã serpente para protegê-la. Sentindo sua pele se transformar, ela se arrasta e se junta ao grupo preso às correntes. Agora ela faz parte do grupo, Sente as corrente envolverem seus pulsos. Exausta, se entrega ao destino junto aos seus irmãos de infortúnio. O dia clareia. Um dos homens vem acordar os negros. Ainda meio sonolento, ele esfrega os olhos, revisa as correntes soltando palavrões. Como animais, são conduzidos até um grande barco, ela nem imagina pudesse existir algo tão grande! Um pano grande enorme com uma cruz vermelha está sobre a cabeça de todos. Logo ela vai aprender que se chama vela, amarrada ao mastro. Começa então o calvário de Nakeba que, junto com os outros prisioneiros é jogada no porão , ela não pode se despedir de sua amada África! E neste instante a fragilidade da mulher, toma conta de seu corpo, grossas lágrimas deslizam em seu rosto. Une as mãos, ainda acorrentadas de encontro ao peito, num ato de sublimação e humildade. O balanço da caravela diz que a viagem tem início.

domingo, 29 de julho de 2012

A saga de Jacira cap IV

A água da cachoeira, cai forte sobre o corpo escultural da índia Jacira. O sol no céu, está alto. O calor escaldante da tarde, faz com que a jovem mulher, interrompa seus afazeres, para refrescar seu corpo na água fria e cristalina do rio. Na margem o arco e as flechas estão displicentemente largados.Ela está longe de sua tribo. Desde menina, vem sendo preparada pelo pajé e pelas velhas índias no segredo da magia ritualística de seu povo. Segue a tradição de seus ancestrais, curandeiros da tribo. Hoje é sua vez de assumir esta responsabilidade passada de uma geração para a outra! Construir sua oca longe da tribo, sobreviver com a caça, aprender a ouvir o silêncio da noite. Vem fazendo isso há doze luas cheias! Tempo que diz que ela pode voltar! Como foi importante este tempo de recolhimento! Sente-se forte, com energia, e ao mesmo tempo pequena perante a imensidão deste céu. Está pronta para voltar e assumir com as velhas xamãs, seu lugar de direito! Mergulha o belo corpo nú, deliciada com o prazer que sente, neste momento. Ao voltar à tona, pressente o perigo...algo diferente se aproxima de onde ela está. Ouve risadas e vozes humanas, não consegue entender o que dizem. Seu olhar procura uma moita, na margem do rio, onde possa se esconder. Em vão. O que vê são suas armas, lá , sem a minima chance de serem alcançadas. Os vultos tomam forma, alguns homens de pele branca, diferente de qualquer homem que ela conheça, acenam para ela, dizendo coisas incomprensíveis. Eles vestem panos, que cobrem todo o corpo, a cabeça também é coberta. Logo, dois deles, tiram a roupa e entram na água. Seu instinto avisa que está em perigo. Como um animal acuado, procura desesperada chegar na outra margem, em vão, eles a alcançam e a puxam para fora da água. Ela grita, esperneia, se debate arranhando o corpo nas pedras roladas escuras, da beira do rio. Sente as mãos dos homens tocarem seu corpo nú, ávidas. São áspareas, grosseiras e machucam muito. Um deles a levanta pelas axilas, e cheira seu ventre com grunhidos de um porco do mato, então joga-a no chão. Meia tonta, tenta fechar as pernas, mas os dois que haviam entrado na água, não deixam. O olhar deles invade cada pedacinho do corpo da jovem índia. Um deles que parece ser o chefe, se aproxima. baixa as calças e penetra a mulher indefesa, com gemidos de prazer. O grito de Jacira se mistura ao gozo do homem branco ao entender que estava tirando a virgindade dela. Indiferentes aos gritos que ela lançava, como uma pantera ferida,os outros, um a um cometem a mesma vilania, como animais no cio, sem o menor escrúpulo. Ela perde a noção do tempo... já não grita, seus olhos parados, fitam a copa das árvores, seu corpo não sente mais nada. Assim deve ser a morte, sem sensação, ela neste momento deseja morrer. Seus sonhos, sua pureza, até então guardada para seu homem, já não mais importa. Nem Tupã o sol, nem Jaci a lua, podem fazer qualquer coisa por ela. As lágrimas quentes que enfim rolam em seu rosto, são o choro de Iara a deusa das águas, que impotente assiste ao sofrimento de sua filha. Eles enfim se afastam saciados, aos risos. Ajustam suas capas brancas onde uma cruz vermelha se destaca n frente e nas costas. Indiferentes ao estado da índia, vão embora sem olhar para trás. Machucada em seu corpo, violentada em todo seu ser, ela se arrasta até a água onde deixa o corpo afundar, pedindo que Iara a leve consigo para onde a água nasce. Sente que vai perdendo os sentidos, debaixo da água.Sente a abençoada escuridão chegando... Mas o instinto natural de sobrevivência faz seu corpo voltar à tona! Um grito semelhante ao urro selvagem de uma onça ferida, sai de sua gargante de seu útero de sua alma. As mãos buscam com sofreguidão o barro do fundo do rio, esfrega o corpo com desespero, querendo tirar a marca suja da violência de dentro dela. Em vão. Se afasta com dificuldade da cachoeira, ali já não é mais sagrado, tudo ali fôra profanado. Consegue chegar na oca onde passara as últimas doze luas. Chora baixinho, cobre o corpo doído com a manta que ganhara de sua avó e desfalece num sono profundo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A saga de Isabel Cap III

Em Évora, no interior do interior de Portugal, mais um dia começa! Isabel passara a noite em claro. Seus dois filhos, Pedro Gil de seis anos e Maria Eduarda de quatro anos, ardem em febre. Rui seu marido, esperara o dia clarear para ir na aldeia buscar o médico, o capelão. Isabel aproveita a saída do marido e apressada vai até a pequena horta, que cultiva com cuidado e muito carinho. Ela adora as ervas curativas que planta ali. O sol toca sua cabeça, encoberta por um grande chapéu, que esconde as lindas madeixas cor de trigo. Colhe algumas ervas, tradição que sua avó passara para sua mãe, que antes de morrer, tivera o cuidado de ensinar tudo que sabia para a filha. O cultivo o uso de cada uma e o colher nos primeiros raios do sol. Escolhe uns ramos da erva que tira o calor do corpo. Não fizera antes por dois motivos...Rui tem medo que as pessoas da aldeia possam comentar, e o outro motivo era colher na hora certa. É uma época que por qualquer desconfiança, homens e mulheres são acusados de bruxaria, e sendo julgados pela igreja, são presos e queimados na fogueira. Com agilidade, vira na caneca onde coloca a erva escolhida, a água que no rústico fogão à lenha, fervilha colocando a tampa.Logo, o cheiro forte da erva se espalha pela pequena casa onde mora com sua família. Espera um poquinho o tempo passar, pega a caneca e abre a porta da casa, para que o ar de inverno esfrie mais rápidamente o chá. O sol já vai alto, no céu. Adoça a bebida com uma colherinha de mel. Com carinho ela faz as duas crianças beberem devagarinho o líquido. Com fervor ela reza a Ave Maria, pedindo à mãe de Jesus que tire o mal que aflige seus filhos e que a Santa Senhora os abençoe. Quando elas bebem todo o chá, ela leva a caneca para a cozinha, voltando para junto dos filhos. O tempo vai passando, não muito. Como por milagre, a febre vai baixando. O rosto avermelhado das crianças vai sumindo e a cor normal traz um grande alívio para a mãe. O sono deles agora é calmo e reparador. Aliviada Isabel agradece à sua Santa querida, pelo bem estar de seus filhos. O cansaço da noite mal dormida toma conta dela, relaxa, ao lado deles, adormece . -O que voce está fazendo, mulher? A voz de Rui a desperta. Por instantes se sente envolvida em uma luz de gratidão e fé! Abrindo os olhos, vê a cara de espanto do Frei Domingos e o olhar aflito de seu marido. -Eu estava cá a agradecer à Nossa Senhora a cura de nossos filhos. Sua voz sai tranquila e pausada. -Eu trouxe o capelão para curar eles... Demorei pois tive que ir até a outra vila para encontrá-lo. Feliz, dona de si, ela pega na mão do marido e o conduz até o quarto, onde as duas crianças dormem. Rui se ajoelha ao lado da cama, toca em suas testas para se certificar. Ele não acredita, a temperatura deles está normal! -Obrigada meu Deus! A voz dele sai trêmula e agradecida. -O que é isso? a voz do capelão, que fôra para a cozinha ecoa pela pequena casa como um trovão. O tom desconfiado com que esta pergunta foi feita, alerta Rui do perigo. - Isabel explica isso direito mulher! -É um chá de camomila que eu fiz para baixar a febre de meus filhos, meu senhor! O capelão tem nas mãos a caneca onde o chá fôra feito...ela ficara destapada, sobre a mesa. Atraidas pelo cheiro do mel, algumas abelhas cairam dentro da caneca e estão mortas. -Capelão, Rui, isto é apenas um chá! As abelhas devem ter caído enquanto eu peguei no sono. (em vão ela tenta explicar) -Isso nós veremos depois. Voces não tem permissão para sair de casa, até eu retornar. O tom de voz ameaçador do capelão Domingos deixa clara a desconfiança=bruxaria! Num rompante ele sai, batendo a porta. Tem o cuidado de levar consigo a caneca com as ervas e as abelhas mortas. Isabel, aos prantos ajoelha no chão da cozinha enquanto fala... -Eu não fiz nada de mal, meu marido! Foi só um chá. As abelhas caíram depois que nossos filhos beberam o chá. Sobrou mel no fundo da caneca, elas sentiram o cheiro! Isso as atraiu. A explicação dela tem um tom de medo e o pânico toma conta da jovem mulher. A palavra bruxaria condena qualquer ato que incomode o clero. Rui abraça a mulher e com determinação a faz ficar em pé, junto dele. Seu pensamento traz a oferta de compra de suas terras, pelo capelão, que fôra negada, há pouco tempo atrás. -Arruma tuas coisas e das crianças, enquanto junto as minhas. Pega o necessário, enquanto preparo a carroça e alimento os cavalos. -Rui, pelo amor de Deus, o que vamos fazer? -O único jeito é fugirmos. Quando eles voltarem aqui, não podem nos encontrar, ou te levam e nunca mais nos veremos, tu sabes disso. Ele passa as mãos calejadas de trabalhar na terra,fazendo um carinho no rosto de sua mulher.Seu olhar é decidido. -Vamos Isabel, apressa-te. Temos algumas horas a nosso favor. A hora seguinte é de correria. Em momentos rápidos, ela abre o postigo da janela espiando a estrada, em pânico. Seu medo é ver o capelão chegar com a guarda para prendê-la. No que a carroça está carregada, Rui coloca uma manta grossa para proteger Isabel e as crianças que sem entender nada, ainda fracos pela febre do dia anterior, se aconchegam no colo da mãe e adormecem. No céu, nuvens negras que parecem ter surgido do nada, encobrem o sol. Mas graças à Deus, não chove! Sem olhar para trás, Rui grita com os dois cavalos e a carroça parte. Isabel olha com tristeza o lugar onde nasceram seus filhos e fôra tão feliz! Ainda custa a acreditar... bruxa ela, imagina só! Aperta com fervor a imagem de sua Santa protetora que trouxe junto, reza baixinho uma Ave Maria, pedindo à Nossa Senhora proteção para sua família, que vive este tormento. O céu cinzento não deixa identificar as horas. Pela claridade ainda é dia. A carroça continua seu trote cadenciado, das patas dos cavalos. Isabel observa o rosto desfigurado de seu marido... -Marido vem descansar um pouco, eu conduzo a carroça... -Falta pouco logo chegamos na outra vila e pegamos o navio! A voz cansada, mas audível de Rui, provoca inquietação em sua esposa. -Para onde iremos, meu marido? Por que navio? -Vamos para uma terra nova, o nome é Brasil! Ficar aqui em Portugal é impossível. Nós conhecemos Dom Domingos muito bem! Ele é implacável, não desiste. Quantas famílias ele já destruiu. -Mas onde fica esta terra, Brasil? -Muito longe daqui, além mar, o suficiente para ele nos esquecer. -E nossa casa, os bichos, minhas ervas, a terra? -Ora mulher, bem sabes, a terra é de meu pai, o capelão não poderá tirar dele. Vou deixar uma carta para meu pai, explicando que sentimos vontade de aventurar e buscar riquezas em novas terras! E se Deus quiser, um dia voltaremos! O olhar decidido de seu marido enternece Isabel. O medo se aquieta um pouco e a angústia abandona por instantes seu coração. Rui para a carroça, as crianças acordaram e sentem fome. Felizes com a recuperação dos dois filhos, os pais os alimentam com pão,salame e queijo. Bebem água de uma fonte que corre abundante onde eles pararam. Saciada a pequena família, Rui se acomoda na carroça com os filhos. Isabel aconchega o xale no pescoço e com firmeza pega as rédeas incitando os dois cavalos . -Eia, eia! Eles obedecem dóceis, ao comando firme desta mulher retomando o trote! _Brasil, um mundo novo! Brasil que Nossa Senhora nos leve até a ti, em segurança! Com estas palavras ditas com coragem, dirige a carroça para o porto!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A saga de Nakeba Cap II

O tempo se arrasta, lento , muito lento para Nakeba e seu povo. A alegria até então vivida por sua tribo fôra abruptamente cortada! Seus irmãos, homens fortes e jovens, foram arrancados e levados à força, para muito longe dali. Os velhos, as mulheres e as crianças retornaram aos poucos, feridos, desesperançados à rotina. Agora seus olhos estão tristes e o sorriso, antes tão aberto é raro em seus rostos. Exatas seis Luas cheias se passaram desde aquele dia maldito. Em vão ela tentara, acendendo o fogo sagrado, encontrar o caminho que seus irmãos seguiram, para ir atrás deles. tentar salvá-los. Mas nas chamas desprendidas do fogo, a única imagem que aparece, são olhares assustados, acuados, como animais enjaulados. Por isso decidira nesta noite, com a Lua cheia fechando os seis meses ,reunir as anciãs da tribo e com a fôrça de todas elas, poder enxergar mais longe. O céu, cheio de estrelas, palpita vida! A aldeia dorme. Uma a uma, as anciãs vêm chegando, a sétima completa o grupo. Com Nakeba, são oito. Cada uma delas trás desenhado em sua testa a estrela, na cor negra usada apenas por mulheres da tribo com grande conhecimento de magia. Duas são amparadas pelas demais, são tão velhas, que a dificuldade em andar precisa que as outras ajudem. O cajado que cada uma segura e serve de apoio, tem na ponta uma serpente e uma coruja respectivamente. Os mantos que cobrem os corpos das mulheres, feito de penas de pássaros, é multicolorido, menos os das duas velhas com os cajados. O de uma é negro e da outra é branco. Elas são acomodadas em dois troncos de árvore entalhados e forrados com peles de animais. Enfim, todas estão sentadas, ao redor da fogueira que a princesa Nakeba acendera antes do sol se por. A um gesto, da que usa o manto negro, todas começam a respirar ruidosamente, cantam a canção que chama os espíritos de seus ancestrais.A de manto branco ímita o grito de uma águia, seguido por todas. Cada uma emite o som de um pássaro, buscando seu poder xamãnico. Não demora muito tempo, para a selva responder... logo o som gutural produzido pelas mulheres, se mistura ao som de todos os animais ao redor. O som é ensurdecedor! Isso dura poucos minutos. É então que a selva subitamente, silencia! Ouve-se tão sómente o som proferido pelas mulheres, uma nota só, arfante. Uma a uma, vão silenciando. Ouve-se agora, o gemido da anciã de preto e a respiração pesada da de branco, que se tornam quase inaudíveis. Um torpor invade as mulheres, conforme a intensidade do som que diminui, mais leve, mais baixinho, até o silêncio que é quase absoluto, neste instante. Nakeba pressente a chegada das águias. O vôo baixo das oito águias, quase toca suas cabeças. Voam em círculos, com gritos estridentes. Ela ergue os braços acima de sua cabeça, buscando sua águia de poder! Sente seu corpo ser projetado para cima e sendo agora a águia, sua consciência voa, acima da tribo, acima das árvores, buscando uma direção. As enormes asas sustentam seu corpo forte, sem medo, determinada em encontrar seus irmãos, ela voa. Atravessa o chão sagrado, onde os velhos são enterrados, atravessa a mata densa, onde trilhas estreitas são encobertas pelas árvores. A voz da africana chamando os irmãos, sai em gritos estridentes. O pequeno coração bate acelerado, seguindo uma trilha, só percebida por elas, águias. O local é estranho, muitos dias de caminhada, dá no mar. Seus olhos como um radar, observam cada detalhe. Telhados escuros, latidos de cães,uma clareira onde em um tronco de árvore, um homem negro está amarrado. Dá para ver o sangue coagulado em suas costas marcadas com cortes profundos abertos. Uma nuvem de dor e angústia encobre o local, não permitindo que ela veja mais nada. Brutalmente a consciência dela é puxada de volta, as duas anciãs estão de pé, esvoaçando seus mantos negro e branco, fazendo com que o som das penas e traga de volta em segurança; as cinzas mostram que ela ficou algumas horas fora dali. Nakeba saúda curvando o corpo, a águia que, soltando um grito vai embora. A maioria das mulheres dormem enroladas em seus mantos. Uma tem os olhos abertos, mas sua mente está longe dali. Nakeba, a princesa guerreira desta tribo, se ajoelha em frente as duas mulheres mais velhas. Em silêncio, as duas a observam, mas atentas a qualquer outro movimento ao redor. A do manto branco pega a mão esquerda da jovem africana e coloca sobre seu coração. A do manto negro pega a mão da direita e coloca sobre sua cabeça. Elas falam então, juntas... O coração te dará o caminho! A razão guiará teus passos! Vai filha do nosso coração. Em seguida batem palmas, chamando a atenção de todas, para encerrar o ritual. Cada uma pega um punhado generoso das cinzas que está fria, e coloca dentro de um saco que cada uma tem, amarrado à cintura. As duas anciãs saudam os deuses da natureza em um canto que é repetido por todas. O céu começa a clarear, é dia novamente na África! Nakeba entra onde crescera com seus irmãos, junta algumas poucas coisas, que amarra em um pano. Coloca no pescoço seu patuá feito de penas de águia e dentes de pantera. Seu coração está apertado. Abre os braços, querendo colocar cada pedacinho dele seu lar, no coração.Já sentindo saudades, pressente que não vai retornar. Os olhos buscam nos recantos, imagens para recordar. Envolve seu velho pai numa onda de carinho, abençoa os sobrinhos , filhos de seus irmãos capturados. Sai sem fazer ruído. Sabe que as anciãs explicarão sua saída, cuidarão de seu pai.Respira fundo, tenta controlar a dor que dilacera seu corpo e enquanto se afasta da aldeia, chama o espírito de sua mãe, para estar com ela neste momento em que ela se torna mulher. Está absolutamente só no mundo! A esperança de encontrar seus irmãos é a única luz que norteia sua vida e sua alma roga aos deuses que aquele homem morto, amarrado no tronco, não seja um de seus irmãos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Quem começa a saga? cap I

As tres mulheres estão aqui comigo. Pergunto sobre a vida de qual, começo a escrever... elas olham com profundo carinho, uma para a outra. A mais alta e forte do grupo,(neste momento as tres parecem ter a mesma idade, jovens mulheres) parece firme em sua postura! Suas longas pernas deixam ver a rigidez da musculatura! Paciente, espero a decisão, observando a harmonia presente aqui, agora! Sem trocar uma única palavra, a africana chega mais perto de mim, as outras em concordância, sentam comodamente nas cadeiras existentes na sala, onde eu trabalho com o computador. Respiro fundo, sinto o corpo dela se acomodando no meu, minhas costas se aprumam, seu corpo é tão maior que o meu! Logo nossas mãos, teclam com agilidade as letras, que formam frases e a história dela começa a tomar forma. Quietinha, dentro de mim, deixo que a expeirência flua, sentindo que meu corpo inicia uma maratona.